Análise Hertzberger

O livro “Lições de Arquitetura”, de Herman Hertzberger, traz à luz diversos conceitos e ideias que nos ajudam a fazer uma análise de nossa própria residência e seus arredores. Iniciando-se do exterior para depois ir adentrando a construção, temos uma rua pensada principalmente para os carros. Sua via larga é conduzida por passeios estreitos e acidentados que convida os pedestres a uma passagem rápida e desconfortável, enquanto recebe os automóveis com lugares para estacionar tanto do lado esquerdo como direito. 

Ao contrário da “rua reconquistada” que o autor nos apresenta, temos aqui um espaço pouco estimulante para o contato social e muitas vezes largado aos cuidados dos órgãos públicos. Alguns vizinhos ainda carregam certa responsabilidade ao menos com o passeio em frente a própria casa, enquanto outros se preocupam apenas em ter as passagens para as suas garagens livres. O envolvimento é tão pequeno que muitos até utilizam os passeios dos poucos lotes vagos da rua como áreas residuais em que se pode despejar tudo aquilo que se tornou indesejável na própria residência. Os muros altos e portões fechados demarcam bem os espaços públicos e privados, tornando hostil até mesmo o entre-espaço que os passeios ousam insinuar. 

Exceção a isso vem a ser minha casa. O muro baixo em cobogó completado por uma grade bastante aberta determina o perímetro da casa, mas suas aberturas trazem o mundo exterior para dentro e criam uma relação mais forte entre minha família e a rua. A partir do momento que a organização do espaço externo passa a afetar, principalmente, nossa visão, cresce a preocupação e o envolvimento em manter a área limpa, bem cuidada e apresentável. Os canteiros que correm ao longo do muro também demarcam nossa influência pessoal no espaço público e contribuem para alimentar nosso senso de responsabilidade. 

Essa transparência exagerada dos limites do terreno atenua a divisão entre espaço público e privado, fazendo com que o chamado “intervalo” ganhe terreno até mesmo no lado de dentro do portão, inundando a área ao ar livre da casa com extensões da rua e possibilitando um diálogo facilitado com aqueles que transitam pela região. Da mesma forma que dá abertura para esse relacionamento, a maneira como o terreno é cercado abocanha bastante da privacidade dos moradores, que a todo momento tem uma visão clara da rua como também são vistos sem grandes impedimentos. 

O espaço a céu aberto é ocupado principalmente por vegetação, com gramados generosos, árvores bem desenvolvidas e plantas pequenas espalhadas por todo lado. Os pisos construídos servem ao mesmo tempo como caminhos e, com os diversos desníveis presentes, ganham também o uso de assentos e espaços de convivência. Ademais, as bancadas construídas para aproveitar as mudanças de grau maior de nível contribuem para a sociabilidade dos espaços e servem tanto como apoios como mesas para receber visitas, beber uma cerveja aproveitando a brisa externa, dentre outras coisas. 

Acredito que o maior exemplo da adaptabilidade da construção é o fato de que uma casa planejada para servir apenas como moradia, é a sede de um museu interativo de ciências, com diversas zonas para assuntos diferentes e experimentos espalhados por todo o terreno. O espaço recebeu algumas reformas (ainda em andamento) para receber melhor as dinâmicas do museu, principalmente em um momento que a pandemia nos faz refletir sobre diversas situações, mas a estrutura inicial continua a definir a construção. 

O núcleo central da casa é cercado por uma varanda que circunda toda a casa e que, mesmo sendo fechada, cria ambientes que conversam tanto com o interior quanto o exterior. Acaba sendo um espaço de transição em que não se sabe se está dentro ou fora da casa, mas seu piso de mesmo material convida o sujeito a adentrar os demais ambientes. A cozinha e os banheiros se portam como ambientes mais rígidos, que não oferecem muitas possibilidades quanto à ocupação do espaço e as funções destinadas a ele, mas conseguem resolver bem aquilo a que foram planejados. Os demais ambientes do primeiro andar são salas amplas que acabam sendo caracterizadas pelos usos a que são destinadas, havendo a possibilidade de alterações sempre que desejável. 

A ligação para o segundo andar ocorre por uma escada estreita, mas bastante transparente. Esses dois aspectos constroem relações de abertura e fechamento, mantendo este segundo nível isolado ao mesmo tempo que oferece aberturas para ele. Neste piso temos banheiros e uma suíte que nos priva de certas possibilidades enquanto a seu uso, mas em contrapartida observamos a presença de cômodos que assumem sua identidade pela função a que são destinados, podendo ser quartos, salas, escritórios, dentre outras coisas. Os poucos móveis fixos ajudam a articular essa gama de possibilidades, dando muita liberdade para que estes espaços sejam pensados e usados da melhor maneira em determinado momento. Em termos dimensionais estes ambientes são bastante similares, mas recebem certa hierarquização pela vista que proporcionam e sua posição quanto ao sol. O lado direito da casa recebe o sol pela manhã, construindo uma atmosfera agradável ao acordar, ao passo que a noite as temperaturas já não são exageradas. Não bastasse estas vantagens, este lado ainda conta com uma bela vista para a lagoa central da cidade. O corredor de circulação não ocupa muito espaço e ainda conta com o vão da escada ao lado para torná-lo mais aberto e fresco, com um pequeno ambiente livre oposto a ele, que também já serviu a várias funções. 

Centrando propriamente em meu quarto agora, é um ambiente amplo, com uma parede ocupada pelo armário, uma parede livre e outras duas que recebem uma janela cada. Ao mesmo tempo que é agradável a presença dessas duas janelas e a circulação de ar que isso possibilita, estas duas aberturas podem deixar o ambiente muito exposto se eu não optar por fechá-las. Além de ocuparem bastante espaço das paredes. Um ponto bastante positivo é o parapeito largo de uma delas, que pode funcionar como um banco para se sentar e apreciar a vista da lagoa, as cores do céu e o “brilho” da lua. O ambiente de dimensões simples retangulares possibilita diferentes formas de organização, o que me dá liberdade e acaba me induzindo a modificar a posição dos objetos ao longo do ano, criando diferentes formas sem deixar se perder a identidade do meu quarto.


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