A fala do objeto: diálogo mesa-redonda/mochila

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“A nossa função, os objetos, é animar a humanidade, programá-la. Se tivermos plenamente nos conscientizado dessa nossa função, fundamentalmente filantrópica, teremos levado a nossa Revolução até a sua gloriosa meta. ‘Animação cultural’ é pois nosso brado de guerra revolucionária vitoriosa”*. 


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  • Um momento, camarada mesa-redonda! Não caiamos no primitivo erro da generalização. Nem todo humano, repito, nem todo humano, nos clausura na servidão eterna. Eu, por exemplo, carrego com meu humano uma convivência harmoniosa. Construímos e seguimos construindo uma genuína amizade. Apresento-me sempre a ele se porventura houver uma jornada a ser realizada. Estamos ordinariamente nos postando a conhecer singulares espaços pelo globo terrestre.


  • Ora, camarada mochila, não sejas tão ingênuo. Eis a mais pura confissão de servidão. Sem dúvidas teu sórdido humano o porta com grande vínculo pelas andanças do próprio, mas objetivamente como subordinado, não como amigo. És tu quem leva o fardo de comportar tudo aquilo que há de ser útil em momento oportuno. És tu que mesmo tão necessário se vê obrigado a enclausurar-se no isolamento do bagageiro e, por muitas vezes, conserva-se aprisionado num só cômodo em suas viagens. Há de ser com nossa Revolução o livramento de toda e qualquer infame relação que rege nossa convivência com a humanidade. Lutemos!



*trecho retirado do texto de Vilém Flusser (FLUSSER, Vilém. Ficções filosóficas. Capítulo 22 - Animação cultural, página 147. Editora USP. 1998).

 

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